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Chegar a algum lugar é sempre confuso. Você nunca sabe se deve sorrir e tirar os sapatos, ou se já pode ir pedindo um suco de laranja, sem açúcar, por favor!

Apresentar-se pra alguém é aquela coisa bonita de se ver. Você nunca vai dizer: Oii, meu nome é Marcos. Eu enterrava animais vivos quando criança, repeti três vezes a 5ª. série, traí minha primeira namorada com a prima dela, matava aula na faculdade toda sexta feira, tenho transtornos diversos, síndrome do pânico, e há! Aquela vez que o Paulo foi suspenso por ter roubado as provas na sala da diretoria, devo confessar: fui eu!

Claro que não!
Apresentação é igual inicio de namoro: você só mostra o que é bom. Ou seja: maquiagem pura!

Dias atrás, fui convidada a escrever pra uma revista, e a editora pediu para que eu me descrevesse.

Confesso que fiquei com vontade de perguntar: você quer que eu escreva como eu sou ou como você gostaria que seus leitores me vissem? Resumindo, “Posso mentir?”

E aí fiquei imaginando que uma descrição justa da minha pessoa, seria algo mais ou menos assim:

Olá gente, eu sou uma pessoa normal.

Assim, normal, dessas que você encontra na fila do banco ou no caixa do mercado comprando pão pro café da tarde. Dessas que tem a maior cara de boa praça, que acorda cedo e põe o travesseiro pra tomar sol.

Quando nasci, o médico me olhou dos pés a cabeça e disse: 3,350 quilos, humm, normal… O padre me batizou como “filha de cristo”.

Então é isso: sou uma pessoa normal, filha de Cristo.

Sou alguém graduada e pós graduada em resolver problemas alheios, mas que fica sem chão quando some do banheiro o Victória Secret, aroma de baunilha.


Enquanto escrevo, um tio meio grisalho com ausência de cabelo e de bom senso, instala a tv a cabo e me olha incansavelmente tentando entender o que eu faço, há uma hora olhando pra uma parede verde com listrinhas brancas, com caneta e papel na mão.

Diante disso, tenho moral pra cometer quantas bizarrices eu quiser. Sou normal, entende? Posso ser a criatura mais estranha, que todo mundo vai me olhar e dizer: ela é normal. Ela usa roupas em tons pastéis, se anima com crianças, usa argolas e fala como a filha do Xororó. Assim, Normal.

Eu escrevo, moço.

Clarooo! Claro que eu não disse isso pro tio que instala TV a cabo. Porque eu sou normal, e pessoas normais dizem algo como: Calor, né? Deu na televisão que o tempo muda na terça feira. O senhor quer uma água?

Eu atravesso crianças na saída da escola, simpatizo com velhinhos de mantinhas xadrez. E digo mais: sinto vontade de levar pra casa todos os velhinhos de mantinhas xadrez do mundo. Essa é que é a verdade.

E pessoas que escrevem são assim mesmo. Elas precisam olhar fixamente para paredes com listrinhas, a fim de tentar abstrair o cachorro que late, a criança que canta músicas evangélicas na casa ao lado e o tio que ao invés de instalar a merda da TV a cabo, fica aí olhando as minhas pernas.

Então, se o senhor puder, assim, se não for lhe causar muito incômodo, fazer o seu trabalho e parar de me achar estranha, eu ficaria grata.

De nada vai adiantar o senhor ficar me olhando. Porque eu posso até tentar não ser bizarra, mas assim que eu me vir sozinha, toda a minha bizarrice vai voltar com força total, entende?

Leio livros considerados legais e assisto a filmes que ganharam o Oscar. Até Avatar eu já vi. Olha que normal que eu sou.

Atendo o telefone só no terceiro toque pra não dar pinta de que estava tendo crises de ansiedade ao lado do aparelho. Choro ouvindo minha mãe emitir sonoridades ao chupar laranja. Adoro encontrar amigas antigas do primário que hoje estão pesando 20 kilos a mais que eu. Adoro.

Gosto de tomar café às três da tarde, ouvindo alguma rádio dessas que fazem com que a gente pense que está tudo sob controle, como a Itapema FM, por exemplo.

Eu tenho medo das horas que antecedem ao sábado à noite.

Passo rímel, uso salto, falo bonito e acabo minha noite encostada num balcão de bar, conversando amenidades com um chatinho de camisa pólo, desses que estudam ciências da computação.

Não bebo. Não fumo.

Adoro escrever, porque acredito que é uma forma de compartilhar histórias, dúvidas, problemas e fazer com que todo mundo tenha a certeza de que todo mundo é louco igual.

Morro de preguiça de pessoas descartáveis que gritam “amiiiiiiiga” e falam com voz de ganso americano. Odeio.

Sou normal. Não sirvo como ponto de referência.

Nãooo, claro que eu não disse nada disso pro pessoal da revista.

Apenas respondi: Vanessa Pinho, 27 anos – Florianópolis.

Porque eu sou assim, normal.

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Por: Vanessa Pinho

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