Eu tenho, você tem, o tio que vende pipoca acabou de criar um – vê se pode, não nasce ninguém tolo mesmo! Até a tia Margarete, que vivia dizendo que computador só serve mesmo pra fazer com que a gente se desligue do mundo real e viva um pouco muito no faz de conta, agora também tem um.
Orkut! Eu adoro, e você?
Eu fuço a vida das pessoas, e você?
Sei, você vai dizer que não. Eu também digo. Falo que meu Orkut é pra trabalho, mas sei de tudo que acontece até na vida da Madalena, a merendeira do meu antigo colégio.
O fato é que o Orkut acaba mesmo nos levando para um mundo paralelo.
Embarcamos! Conheço gente que foi e nunca mais voltou.
Orkut é uma maquiagem mega power, das melhores. É um Photoshop que você vai editando, editando, e só deixa o que existe de bonito.
Sem contar nos “amigos” que se dividem em:
50% Pessoas estranhas do colégio, que usavam aparelho, botinha ortopédica e óculos de grau.
10% Pessoas que você conhece, mas que te odeiam e só te adicionam pra saber quando você estará gorda, feia e acabada.
10% Seus amigos, família, pessoas que você tem contato diariamente e ama de paixão.
20% Contatos de trabalho.
10% Pessoas avulsas que não se encaixam em nenhuma das opções acima e primas de quinto grau que você tem vontade de socá-las dentro de um guarda volumes e “tacar” a chave fora.
Dia de chuva é trabalhoso. As crianças brincam pelo quarto de desfile de moda, e daqui é possível ver que minhas coisas todas serão tendências na próxima estação.
Meu batom novinho acabou de quebrar na mão da Bellinha e um cheiro muito forte de perfume caro pago em duas vezes surge seguido de um barulho como se algo tivesse caído do armarinho do meu banheiro.
Socorro! O jeito é distrair um pouco no Orkut.
Apertem os cintos, que a viagem vai começar!
Quem sou eu: Menina que te encanta, garotinha que te fascina, mulher que te enlouquece, a loira que te domina.
Tradução: Ninguém acha que eu sou tudo isso, nem eu. Mas se eu disser que sim, já existe aí uma chance bacana de alguém acreditar.
Quem sou eu: Sou aquela que você nunca será.
Tradução: Estou pegando o namorado de uma conhecida, ou meu ficante acabou de deixar a namorada por minha causa. Preciso mostrar que sou melhor que ela, mesmo tendo a certeza absoluta que não passo de uma piriguete com a auto-estima no buraco.
Quem sou eu: Feliz, de boa!
Tradução: Levei um fora do meu namorado e estou chorando três dias sem parar nem pra respirar. Mas preciso mostrar pra ele que tô feliz, assim, de boa mesmo.
PS: Essa pessoa costuma também atualizar o Orkut diariamente com fotos e legendas explicativas com datas e local das baladas em que freqüenta.
Quem sou eu: A vida é minha eu faço o que eu quiser!
Tradução: Saio pra balada, subo na mesa e se bobear, beijo até o manobrista do estacionamento.
Quem sou eu: Não precisa mudar, vou me adaptar ao seu jeito, seus costumes, seus defeitos…
Tradução: Proíbo meu namorado de falar com qualquer ser do sexo feminino, vivo em crises, morro de ciúmes, sou ansiosa, dramática, tenho síndrome do pânico, mania de perseguição e participo de grupos de ajuda para mulheres.
Quem sou eu: As mulheres são como frutas, as melhores estão no topo.
PS: Se ela não for a mulher melancia, a mulher jaca e nem a mulher melão, a tradução é a seguinte:
Tradução: Sou toda feinha, chatinha, vivo gripadinha. Não consigo pegar ninguém. Nem mesmo aquele gordo chato da oitava série… Mas digo pro mundo que ainda não achei alguém do meu nível.
Quem sou eu: Garotas boas vão para o céu, e as más vão pra qualquer lugar!
Tradução: Estou na prateleira. Quem chegar primeiro, leva!
Quem sou eu: Eduardo, te amo muitooo amoree!
Tradução: Olá sou uma pré-adolescente, que assim que fico com alguém corro pro orkut e atualizo o status, porque preciso prestar conta pro mundo de tudo que acontece nessa minha vidinha sem emoção. Prazer.
Quem sou eu: Tente me decifrar. Muitos tentaram… Poucos chegaram perto. Ninguém conseguiu!
Tradução: Já dei pra uns 50 e nenhum prestou.
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Percebeu como é fácil saber tudo sobre a sua vida e sobre o passado que te condena?
Assustador? Não, a indústria cibernética do fuxico… E ó: depois de ler esse texto, é melhor reler o seu “Quem sou eu”, hein?
Por: Vanessa Pinho
31 de maio de 2010
22:56:55
Eu já li essa crônica – e em versão INTEGRAL. É uma das recordistas de comentários no http://www.mulherices.com.br :)
1 de junho de 2010
19:38:03
A Vanessa, como sempre, arranca risos e faz com que a leitura do texto pareça um bate-papo despretencioso, daqueles que a gente espera não acabar tão cedo. Parabéns pela criatividade!